aliás, se eu soubesse que
iria acabar assim,
não importando o que eu fizesse,
teria sido ao menos canalha.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Dar de Ombros
A vida é esse solene dar de ombros
Com que se morre a cada dia.
Sua face, agora bonita,
Jazerá com os vermes,
apodrecerá, feia.
E nada fazes perante isso
- verdade absoluta que não te escondem.
Nem nada fará
Ou poderá fazer.
Tu foras concebido, também,
Em um dar de ombros.
Não notarás o amor da sua vida na primeira vez que o encontrar,
Sequer decidirá racionalmente entre todas as escolhas da sua vida
Aquilo que melhor te servirá.
E os cuidadosos que me perdoem,
Mas você provavelmente morrerá
Com um dar de ombros.
(Seu ou de alguém - outro pobre coitado).
Nem tudo na vida a gente faz:
A vida é um passo em falso...
Com que se morre a cada dia.
Sua face, agora bonita,
Jazerá com os vermes,
apodrecerá, feia.
E nada fazes perante isso
- verdade absoluta que não te escondem.
Nem nada fará
Ou poderá fazer.
Tu foras concebido, também,
Em um dar de ombros.
Não notarás o amor da sua vida na primeira vez que o encontrar,
Sequer decidirá racionalmente entre todas as escolhas da sua vida
Aquilo que melhor te servirá.
E os cuidadosos que me perdoem,
Mas você provavelmente morrerá
Com um dar de ombros.
(Seu ou de alguém - outro pobre coitado).
Nem tudo na vida a gente faz:
A vida é um passo em falso...
Alle wir sitzem im selbem Boot
Nós todos sentamos no mesmo barco
E bebemos do mesmo vinho
E quebramos as mesmas regras
E nos cortamos no arame farpado das palavras
Concretas sobre o concreto.
Temos nos traído
Traído de todas
as formas
Traído e caído.
Restamos sós nas mesmas madrugadas frias,
Iludidas por promessas
De vida nova.
Nós sentamos no mesmo barco
E perdemos a compostura
quando ele vira.
E bebemos do mesmo vinho
E quebramos as mesmas regras
E nos cortamos no arame farpado das palavras
Concretas sobre o concreto.
Temos nos traído
Traído de todas
as formas
Traído e caído.
Restamos sós nas mesmas madrugadas frias,
Iludidas por promessas
De vida nova.
Nós sentamos no mesmo barco
E perdemos a compostura
quando ele vira.
Três macaquinhos
Não está em mim,
Não está comigo.
Não quer falar,
Não quer me ouvir,
Então me vira a face.
Não bastou a boa idéia,
Perdão tampouco.
Era preciso uma renúncia
Além dos limites conhecidos.
Você pressupôs contratos
Nunca antes assinados,
Você quis um pacto de sangue...
Não quer falar,
Não quer ME ouvir.
(Não estou contigo,
Não vivo em ti.
Vivo solta, passarinho,
Viro a face, flutuando,
Encontro novo amor.)
Não está comigo.
Não quer falar,
Não quer me ouvir,
Então me vira a face.
Não bastou a boa idéia,
Perdão tampouco.
Era preciso uma renúncia
Além dos limites conhecidos.
Você pressupôs contratos
Nunca antes assinados,
Você quis um pacto de sangue...
Não quer falar,
Não quer ME ouvir.
(Não estou contigo,
Não vivo em ti.
Vivo solta, passarinho,
Viro a face, flutuando,
Encontro novo amor.)
Mácula literária
Você descobre que é escritor quando se atormenta, segurando uma caneta, com duas páginas em branco e o abismo que se forma entre elas até a lombada do livro.
Há, sempre, de macular essa maciez.
Há, sempre, de macular essa maciez.
A máxima da Sensatez
Para aqueles que gostam de máximas morais universalizantes:
anarre o cadarço com dois nós.
anarre o cadarço com dois nós.
A mãe
-- Senhor Downs.
-- Olá. Pode se sentar ali – o psicanalista indicou o divã – e me contar o que está pensando.
-- O que estou pensando? – ela ergue a sobrancelha e virou-se para a parede, de modo a ir se recostando no móvel macio – Ora essa. Eu penso em muitas coisas, Sr. Downs. Penso nas roupas penduradas no varal e a chuva por vir, nos amores que perdi, na medida certa dos temperos. Sim, penso em tudo isso. Sabe, minha mãe me educou do jeito que fora educada – Fez pausa, piscando longamente os cílios. Sua narrativa desacelera – Na época dela, - tentou recordar-se de algo distante, intangível, algo que não vivera – uma mulher não precisava pensar e, se o fizesse, fazia melhor escondendo a ousadia sob as tarefas mais cotidianas o possível.
Se nosso maridos resolvessem, por acaso, dizia ela, assinar um contrato com um homem a quem juramos ter ouvido falar mal entre as conversas na feira, não diríamos que era bom no calote, não. Nossos maridos diriam, nos espantando com a mão: ‘sai daqui, mulher; de dinheiro entendo eu’. Contudo, arranjaríamos nos seus modos um olhar galanteador suspeito não existente, um andar com colônias caras, bengala e abotoaduras condizentes com um esbanjo nunca antes visto – elementos plantados por nossa astúcia que, soprados aos ouvidos de nossos homens, os fariam tremer e, por fim, rascunhados em suas mentes vazias durante o almoço e a noite na cama fria na qual o deixamos a sós com seu orgulho, nossos garotos estariam de novo no caminho certo.
Sim, garotos. Garotos que sugaram os peitos de minha mãe e de mulheres que vieram antes dela, até a Mãe Natureza propriamente dita. Garotos que chegam cansados e suados em casa e que precisam de nós para que lhe demos o que comer. Garotos que brincam com seus filhos como se tivessem idade próxima, garotos que querem brincar conosco, suas mulheres-mães, com aventuras pobres – com amantes que fingimos não saber da existência (e vice-e-versa) só para manter sua canalhice mimada intacta nos nossos braços.
Mulher tem o capeta no corpo. Já ouvi dizer que por trás de toda grande guerra houvesse uma mão feminina iniciando a discórdia. Só o d’abo sabe como mentimos. Mas nem sempre é por mal. Damos nosso peito vazio, seco para que mamem. Seco por causa dos tempos de guerra – guerra entre mais garotos teimosos que brigam pelos melhores postos, lugares, coisas de homem. São garotos brincando de lutinha de espadas que deveiam ser de madeira, ceifando com força a vida de muitos, enquanto concebemos nossos filhos para a nação em nosso quarto. Guardamos para nós o segredo da vida. E é mentindo, alienando a criança de seu leite, que sangramos nossa seiva. Os dentinhos cavam mais fundo na nossa carne pelo alimento e guardamos o grito de dor para um garoto crescido.
Nascemos para ser fortalez de tantos pedidos e necessidades. De demandas infantis. Vejo mulheres fortes nas ruas, mulheres que perto de seus maridos escondem sê-lo, mas deixam a marca indelével na mente de seus filhos, para que nunca esqueçam a natureza real por detrás das coisas da vida. Vejo Capitus, Helenas de Tróia, Cleópatras, Anas e Marias Bolena, Catarinas de Aragão. Vejo mulheres que renunciam de si e que fazem ouvir-se, cada qual a seu tempo... – e respirou fundo, absorta.
O psicanalista segurava o papel e caneta por hábito, pois nada anotara.
--Você acha que um dia vai ser diferente, Dr. Downs? – ela olhava pela janela. Downs não respondia, estava ocupado demais digerindo suas reflexões e as formas de seu corpo harmonicamente feminino e curvilíneo contra a luz.
-- Em casa, deixo meu marido dar a última palavra. Acho que vai ser sempre assim, na verdade. Digo, não somos meros apêndices dos homens – somos nossas, muito nossas -, mas é esse o nosso papel para com eles. É por isso que gostam de nós. De todo modo... – delongou-se, pensativa – é hora de ir, doutor. – disse, pegando a bolsa ao se levantar – Foi um prazer. Até a próxima.
-- Perfeitamente, - respondeu ele, inutilmente levantando-se para lhe abrir a porta.
Pegou, pois, um charuto e pôs-se a pensar, fumando. Afastou o charuto e olhou-o com desconfiança.
-- Maldito seja Freud.
-- Olá. Pode se sentar ali – o psicanalista indicou o divã – e me contar o que está pensando.
-- O que estou pensando? – ela ergue a sobrancelha e virou-se para a parede, de modo a ir se recostando no móvel macio – Ora essa. Eu penso em muitas coisas, Sr. Downs. Penso nas roupas penduradas no varal e a chuva por vir, nos amores que perdi, na medida certa dos temperos. Sim, penso em tudo isso. Sabe, minha mãe me educou do jeito que fora educada – Fez pausa, piscando longamente os cílios. Sua narrativa desacelera – Na época dela, - tentou recordar-se de algo distante, intangível, algo que não vivera – uma mulher não precisava pensar e, se o fizesse, fazia melhor escondendo a ousadia sob as tarefas mais cotidianas o possível.
Se nosso maridos resolvessem, por acaso, dizia ela, assinar um contrato com um homem a quem juramos ter ouvido falar mal entre as conversas na feira, não diríamos que era bom no calote, não. Nossos maridos diriam, nos espantando com a mão: ‘sai daqui, mulher; de dinheiro entendo eu’. Contudo, arranjaríamos nos seus modos um olhar galanteador suspeito não existente, um andar com colônias caras, bengala e abotoaduras condizentes com um esbanjo nunca antes visto – elementos plantados por nossa astúcia que, soprados aos ouvidos de nossos homens, os fariam tremer e, por fim, rascunhados em suas mentes vazias durante o almoço e a noite na cama fria na qual o deixamos a sós com seu orgulho, nossos garotos estariam de novo no caminho certo.
Sim, garotos. Garotos que sugaram os peitos de minha mãe e de mulheres que vieram antes dela, até a Mãe Natureza propriamente dita. Garotos que chegam cansados e suados em casa e que precisam de nós para que lhe demos o que comer. Garotos que brincam com seus filhos como se tivessem idade próxima, garotos que querem brincar conosco, suas mulheres-mães, com aventuras pobres – com amantes que fingimos não saber da existência (e vice-e-versa) só para manter sua canalhice mimada intacta nos nossos braços.
Mulher tem o capeta no corpo. Já ouvi dizer que por trás de toda grande guerra houvesse uma mão feminina iniciando a discórdia. Só o d’abo sabe como mentimos. Mas nem sempre é por mal. Damos nosso peito vazio, seco para que mamem. Seco por causa dos tempos de guerra – guerra entre mais garotos teimosos que brigam pelos melhores postos, lugares, coisas de homem. São garotos brincando de lutinha de espadas que deveiam ser de madeira, ceifando com força a vida de muitos, enquanto concebemos nossos filhos para a nação em nosso quarto. Guardamos para nós o segredo da vida. E é mentindo, alienando a criança de seu leite, que sangramos nossa seiva. Os dentinhos cavam mais fundo na nossa carne pelo alimento e guardamos o grito de dor para um garoto crescido.
Nascemos para ser fortalez de tantos pedidos e necessidades. De demandas infantis. Vejo mulheres fortes nas ruas, mulheres que perto de seus maridos escondem sê-lo, mas deixam a marca indelével na mente de seus filhos, para que nunca esqueçam a natureza real por detrás das coisas da vida. Vejo Capitus, Helenas de Tróia, Cleópatras, Anas e Marias Bolena, Catarinas de Aragão. Vejo mulheres que renunciam de si e que fazem ouvir-se, cada qual a seu tempo... – e respirou fundo, absorta.
O psicanalista segurava o papel e caneta por hábito, pois nada anotara.
--Você acha que um dia vai ser diferente, Dr. Downs? – ela olhava pela janela. Downs não respondia, estava ocupado demais digerindo suas reflexões e as formas de seu corpo harmonicamente feminino e curvilíneo contra a luz.
-- Em casa, deixo meu marido dar a última palavra. Acho que vai ser sempre assim, na verdade. Digo, não somos meros apêndices dos homens – somos nossas, muito nossas -, mas é esse o nosso papel para com eles. É por isso que gostam de nós. De todo modo... – delongou-se, pensativa – é hora de ir, doutor. – disse, pegando a bolsa ao se levantar – Foi um prazer. Até a próxima.
-- Perfeitamente, - respondeu ele, inutilmente levantando-se para lhe abrir a porta.
Pegou, pois, um charuto e pôs-se a pensar, fumando. Afastou o charuto e olhou-o com desconfiança.
-- Maldito seja Freud.
Vitória e derrota sob o Sol
Pegou a arma, sem o absurdo que seria pedir permissão, e escondeu na mochila. Saiu de casa correndo, dizendo que já voltava.
Mentiras, um mundo de sombras construído de mentiras. De tal modo que até mesmo sua visão era turva, os objetos flutuavam ao redor de sua trajetória em velocidade e os fatos seguiam desconexos. Escondia um pouco – o necessário – de cada um, até duvidar do que havia dito e para quem. Não se afirmava por diário: sua realidade era escorregadia. Não lhe apeteciam diários, de qualquer forma.
Poucos – na verdade, ninguém – compreendiam porque remoia tanto o passado. É para que, se um dia confrontada com o que fizera ou deixara de fazer, não se traísse, não fraquejasse na e diante da incerteza. Mastigava os fatos e assim legitimava seu comportamento andarilho.
E corria. Enquanto corresse, pensaria nisso e aonde ir. Lembrou-se de seu segundo lar, a escola do ensino infantil e fundamental. E lembrou-se também, ao parar ofegante na esquina, de que pensava tanto no passado pelo mesmo motivo que a trouxera ali: o passado lhe era caro, sim, em todos os sentidos.
No seu passado, gastara-se. Esbanjara sentimentos, lágrimas, suor, saliva. Marcas de expressão eram o que de mais duradouro havia recebido em troca. Devia seu olhar cansado a elas – e a partir desse era possível ler o que se quisesse ler no resto do corpo, na postura arcada ou ereta. Ainda assim, só podia se agarrar ao passado – sua realidade se estruturava sobre o que um dia já fora realidade. A certeza dos dias passando, do cabelo crescendo, do sol que circunda seu mundo pessoal, dos lábios das pessoas se mexendo e os ecos eternos que geravam...
Não havia deus, havia fatos – e esses podiam ser extenuados em sua graça por uma busca completa, obsessiva pela verdade. A verdade, que se esconde na opulência dos nossos gestos, nos labirintos dos lábios e das perfídias que proferem... Não havia o que não escrutinasse com impaciência.
Deixou-se cair, exaurida, no chão de concreto e encostou-se no muro. Gramíneas repousavam em paz à direita, do mesmo lado em que o sol se punha, atravessando com um raio sua visão periférica. Isso incomodava-a de vez em quando. O muro no qual estava encostada era o do colégio. Se a infância é mesmo um lugar, teria um pedaço daquele chão, daqueles edifícios, do rejunte entre as lajotas. E para sempre estaria ali, com seu nome escrito em alguns tijolos, como se isso tudo bastasse para lhe fazer eterna.
Pois bem. Fugira de casa, com uma arma na mochila. Sentia-se afundar no chão, queria afundar no chão peloamordedeuscomoqueria. Pegou a arma, trêmula, para fazer o que tinha que fazer, o imperativo categórico que lhe soprava o vento no ouvido.
Uma última vez, quis lembrar. Tomada de um vazio completo, esquecera do passado no qual tanto se agarrava – esquecera o nome, de onde vinha e pra onde ia. Abriu os olhos, em busca cheia de agonia. Seu olhar correu os paralelepípedos do estacionamento morto, a mão e o braço com a arma iam relaxando... Recordou de um som, que o vento ajudava a trazer. Recordou a mão calejada; o peso de cinco quilogramas de sua lira (um metalofônico afinado) distribuído pelo talabarte; a marcha insuportável e a postura ereta que só os pedantes conseguiam manter. Aprendera, sim, a mantê-la. A gota de suor que percorria sua espinha abaixo, os gritos do maestro – tudo arquivado. O maestro, é claro, sempre estava certo e, por mais que queimassem sob o sol antes – dias antes – do concurso, teriam de fazer tudo de novo. Recordou-se que o diagnóstico do maestro era ruim. Não ganhariam. Não dessa vez... “Não dessa vez”, repetiu em voz alta.
E na mesma noite, limpara seu instrumento até que brilhasse novamente. Limpara cantando as notas, ritualizando seu sacrifício com o som dos atabaques, pratos e fuzileiros nos ouvidos, compadecendo-se e compartilhando da dor da derrota eminente da fanfarra.
“Não dessa vez, eles diziam...” Reergueu o braço e a mão, revigorada por aquelas memórias de quando lutava inocentemente por alguma coisa, qualquer coisa. “Mas eles estavam errados. Nós marchávamos e ensaiávamos para ganhar, então nós ganhamos.” Suspirou. “Eu estava lá, eu levantei aquele troféu, nós ganhamos. Eu sei que sim.”
E aconteceu.
Mentiras, um mundo de sombras construído de mentiras. De tal modo que até mesmo sua visão era turva, os objetos flutuavam ao redor de sua trajetória em velocidade e os fatos seguiam desconexos. Escondia um pouco – o necessário – de cada um, até duvidar do que havia dito e para quem. Não se afirmava por diário: sua realidade era escorregadia. Não lhe apeteciam diários, de qualquer forma.
Poucos – na verdade, ninguém – compreendiam porque remoia tanto o passado. É para que, se um dia confrontada com o que fizera ou deixara de fazer, não se traísse, não fraquejasse na e diante da incerteza. Mastigava os fatos e assim legitimava seu comportamento andarilho.
E corria. Enquanto corresse, pensaria nisso e aonde ir. Lembrou-se de seu segundo lar, a escola do ensino infantil e fundamental. E lembrou-se também, ao parar ofegante na esquina, de que pensava tanto no passado pelo mesmo motivo que a trouxera ali: o passado lhe era caro, sim, em todos os sentidos.
No seu passado, gastara-se. Esbanjara sentimentos, lágrimas, suor, saliva. Marcas de expressão eram o que de mais duradouro havia recebido em troca. Devia seu olhar cansado a elas – e a partir desse era possível ler o que se quisesse ler no resto do corpo, na postura arcada ou ereta. Ainda assim, só podia se agarrar ao passado – sua realidade se estruturava sobre o que um dia já fora realidade. A certeza dos dias passando, do cabelo crescendo, do sol que circunda seu mundo pessoal, dos lábios das pessoas se mexendo e os ecos eternos que geravam...
Não havia deus, havia fatos – e esses podiam ser extenuados em sua graça por uma busca completa, obsessiva pela verdade. A verdade, que se esconde na opulência dos nossos gestos, nos labirintos dos lábios e das perfídias que proferem... Não havia o que não escrutinasse com impaciência.
Deixou-se cair, exaurida, no chão de concreto e encostou-se no muro. Gramíneas repousavam em paz à direita, do mesmo lado em que o sol se punha, atravessando com um raio sua visão periférica. Isso incomodava-a de vez em quando. O muro no qual estava encostada era o do colégio. Se a infância é mesmo um lugar, teria um pedaço daquele chão, daqueles edifícios, do rejunte entre as lajotas. E para sempre estaria ali, com seu nome escrito em alguns tijolos, como se isso tudo bastasse para lhe fazer eterna.
Pois bem. Fugira de casa, com uma arma na mochila. Sentia-se afundar no chão, queria afundar no chão peloamordedeuscomoqueria. Pegou a arma, trêmula, para fazer o que tinha que fazer, o imperativo categórico que lhe soprava o vento no ouvido.
Uma última vez, quis lembrar. Tomada de um vazio completo, esquecera do passado no qual tanto se agarrava – esquecera o nome, de onde vinha e pra onde ia. Abriu os olhos, em busca cheia de agonia. Seu olhar correu os paralelepípedos do estacionamento morto, a mão e o braço com a arma iam relaxando... Recordou de um som, que o vento ajudava a trazer. Recordou a mão calejada; o peso de cinco quilogramas de sua lira (um metalofônico afinado) distribuído pelo talabarte; a marcha insuportável e a postura ereta que só os pedantes conseguiam manter. Aprendera, sim, a mantê-la. A gota de suor que percorria sua espinha abaixo, os gritos do maestro – tudo arquivado. O maestro, é claro, sempre estava certo e, por mais que queimassem sob o sol antes – dias antes – do concurso, teriam de fazer tudo de novo. Recordou-se que o diagnóstico do maestro era ruim. Não ganhariam. Não dessa vez... “Não dessa vez”, repetiu em voz alta.
E na mesma noite, limpara seu instrumento até que brilhasse novamente. Limpara cantando as notas, ritualizando seu sacrifício com o som dos atabaques, pratos e fuzileiros nos ouvidos, compadecendo-se e compartilhando da dor da derrota eminente da fanfarra.
“Não dessa vez, eles diziam...” Reergueu o braço e a mão, revigorada por aquelas memórias de quando lutava inocentemente por alguma coisa, qualquer coisa. “Mas eles estavam errados. Nós marchávamos e ensaiávamos para ganhar, então nós ganhamos.” Suspirou. “Eu estava lá, eu levantei aquele troféu, nós ganhamos. Eu sei que sim.”
E aconteceu.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Fica entre nós.
Comemos - e há uma mesa entre nós.
Estudamos - e há muitos livros entre nós.
Nos conhecemos - e há amigos entre nós.
Nos casamos - e há uma multidão entre nós.
Estudamos - e há muitos livros entre nós.
Nos conhecemos - e há amigos entre nós.
Nos casamos - e há uma multidão entre nós.
Nos amamos - e nem assim estamos sós:
há carne demais entre nós
E nossas
almas.
No sofá da sala
Um laço de compreensão infinita que se dissipa,
Uma chuva de verão que se esgota -
E mesmo que feita para acabar,
Nos abandona, perplexos.
Uma chuva de verão que se esgota -
E mesmo que feita para acabar,
Nos abandona, perplexos.
Status quo
E tudo o que todos dizem é que estou exatamente onde deveria estar.
E é isso que me mantém coesa.
E é isso que me mantém coesa.
Desconhecido
Meu amor é só uma parte de mim
que ainda não me conhece.
Introduzo-me paulatinamente
em seu coração
para que comece me amando do princípio.
que ainda não me conhece.
Introduzo-me paulatinamente
em seu coração
para que comece me amando do princípio.
Lúcifer
Te pensei verdade-absoluta
para iluminar o meu caminho tempestuoso
E teu raio de sol me fez virar
A cara que nem tapa.
para iluminar o meu caminho tempestuoso
E teu raio de sol me fez virar
A cara que nem tapa.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Um bater de asas, um furacão aqui
Vejo com pouca clareza. Bate no meu peito, no entanto, um motor cardíaco mui semelhante ao vosso e que padece também pelo que não vejo, que sente o impacto até do pouso do lepidóptero menos desajeitado do mundo.
Nove de Fevereiro de 2011
Desaprendi a escrever para outra pessoa que não você. Isso ocorreu certamente porque chegou o momento em que eu fiquei profundamente mergulhada num sentimento atroz da mais pura adoração. Só era bom o que era parte de ti e o era duas vezes mais. Primeiro porque você era inigualável. Segundo, porque o que te integrava possuía o ser meu também - de repente, TODO o seu ser me pertencia, não propriamente a mim,mais a minha veneração, ao meu altar pessoal.
Foi então que desaprendi a escrever at all. Ocorreu que se tornou tão natural a mim que me integrava. Era necessário olhar ao espelho para ver-te e como me sufocava pensar em te perder! Deixei de escrever porque, nesse estágio avançado de minha doença crônica. não era mais necessário que eu me comunicasse. Ou assim julguei. Julguei que esse amor já não encontrava significação na linguagem mortal. Julguei e sonhei com uma eternidade feliz que certamente não me pertence.
Quando arrancou seu pedaço do meu pedaço foi como perder minha versão tátil do paraíso.
Então, desaprendi a amar...
Foi então que desaprendi a escrever at all. Ocorreu que se tornou tão natural a mim que me integrava. Era necessário olhar ao espelho para ver-te e como me sufocava pensar em te perder! Deixei de escrever porque, nesse estágio avançado de minha doença crônica. não era mais necessário que eu me comunicasse. Ou assim julguei. Julguei que esse amor já não encontrava significação na linguagem mortal. Julguei e sonhei com uma eternidade feliz que certamente não me pertence.
Quando arrancou seu pedaço do meu pedaço foi como perder minha versão tátil do paraíso.
Então, desaprendi a amar...
Nunca Resignada
Não, não te idealizo.
(Conheço-te de verso e
de transverso,
Longitudinalmente se o preferir.)
Não, não estou chocada.
(Há de se aceitar, por força,
Que a vida é cheia de ciclos.
Além do mais, sei perder.)
E não, não te ouço
quando você diz que não te sensibilizo mais.
(Minha poesia viveria, sim,
sobreviveria, melhor dizendo,
Mas não pode haver fortaleza sem brecha
Entrada secreta que seja
Ou aríete que não escancare os portões.)
(Conheço-te de verso e
de transverso,
Longitudinalmente se o preferir.)
Não, não estou chocada.
(Há de se aceitar, por força,
Que a vida é cheia de ciclos.
Além do mais, sei perder.)
E não, não te ouço
quando você diz que não te sensibilizo mais.
(Minha poesia viveria, sim,
sobreviveria, melhor dizendo,
Mas não pode haver fortaleza sem brecha
Entrada secreta que seja
Ou aríete que não escancare os portões.)
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Persona
Você partiu em sua esquizofrenia,
completa Alice,
Encontrar um Dom Quixote
E outros heróis em escândalo total.
Personagem de livro,
te inventei num ato eufórico.
Você saiu das minhas páginas
E confirmou as predições de um Tirésias qualquer:
Eu te inventei pra me machucar.
Passada a euforia criativa,
A alegria criadora,
Volto aos meus dias só pra constatar
que dei vida efêmera
A um ser feito de palavras,
palavras escritas com nanquim,
arranhadas com bico de pena,
Palavras duradouras.
completa Alice,
Encontrar um Dom Quixote
E outros heróis em escândalo total.
Personagem de livro,
te inventei num ato eufórico.
Você saiu das minhas páginas
E confirmou as predições de um Tirésias qualquer:
Eu te inventei pra me machucar.
Passada a euforia criativa,
A alegria criadora,
Volto aos meus dias só pra constatar
que dei vida efêmera
A um ser feito de palavras,
palavras escritas com nanquim,
arranhadas com bico de pena,
Palavras duradouras.
Ciência Empírica
Nossas bocas vazias se uniram
E formavam um único ser
feito todo de vácuo.
Fizemos uma ciência empírica
Recheada de jogos
para passar o tempo.
Sim, insistíamos nos erros
só pra ver no que ia dar.
e todos nós acabamos
violados pelo vício,
aterrados pelo medo,
consternados pelo vácuo.
(Nosso pequeno monstro se
voltara
E formavam um único ser
feito todo de vácuo.
Fizemos uma ciência empírica
Recheada de jogos
para passar o tempo.
Sim, insistíamos nos erros
só pra ver no que ia dar.
e todos nós acabamos
violados pelo vício,
aterrados pelo medo,
consternados pelo vácuo.
(Nosso pequeno monstro se
voltara
contra
nós.)
03/05/11
Conto de terror
O gosto do novo
Era ansioso,
Era todo insonso.
Olhares frequentes
Para que então se torne urgência.
É, pois, que nossos caminhos se tornaram
Trilhas conhecidas
Ainda que eu precisasse de ajuda
Para não nos perder.
E foi tanta a familiaridade,
que partimos para o velho hábito -
Com que honestidade nos conhecíamos.
Dê dinheiro, mas não dê intimidade:
Sem aprender, foi assim que nos enclausuramos
Em pequenas celas,
Mas que estavam em grandes torres,
Guardadas por muitos dragões.
Assim, não havia herói que aguentasse.
03/05/11
Era ansioso,
Era todo insonso.
Olhares frequentes
Para que então se torne urgência.
É, pois, que nossos caminhos se tornaram
Trilhas conhecidas
Ainda que eu precisasse de ajuda
Para não nos perder.
E foi tanta a familiaridade,
que partimos para o velho hábito -
Com que honestidade nos conhecíamos.
Dê dinheiro, mas não dê intimidade:
Sem aprender, foi assim que nos enclausuramos
Em pequenas celas,
Mas que estavam em grandes torres,
Guardadas por muitos dragões.
Assim, não havia herói que aguentasse.
03/05/11
Sem Caixinhas de Música
Esquece essa tua valsa de amador,
Desfaz esse teu feitiço inerte.
Eu cometo meus grandes feitos
de cara limpa
E eu me intrometo
Desfaz esse teu feitiço inerte.
Eu cometo meus grandes feitos
de cara limpa
E eu me intrometo
sim
na sua
Preciosa vida.
Outono 2011
A partida
E não sobrou nada
de que pudéssemos nos gabar.
foi dolorosa,
A partilhafoi tão custosa.
E não sobrou nada
de que pudéssemos nos gabar.
Hiperventilado
Me chamo vento. Sou leve. Beijo seu rosto sem pretensões – e se existem são aéreas. Sou brisa suave entre seus dedos, faço pressão nos seus lábios. Te envolvo a cada passo, desisto de promessas porque não há mais rota... faço a curva em teus ombros. Sim, estou sempre contigo, moldo-me em seus atos, porém permaneço intocável.
Se fechas a mão, esvaneço por entre seus dedos. Abre-a e me terás novamente. Estapeie-me e me recomporei tão rápido quanto se movimentares. Completo suas inseguranças e imperfeições, sustento-te quando achas que ninguém te apóia.
Me chamo vento, sou efêmero. Sou essencial a sua respiração, sou teu ar em movimento. Me chamo vento. Me esquecerás tão depressa quanto se lembrares de mim. E ainda que se esqueça, precisará – e muito –, logo, ainda assim estarei contigo. Me chamo vento e meu mal é ser invisível.
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